Gosto muito de atender adolescentes. Já tive quatro em casa (uma filha nascida em 1985 e um filho nascido em 1989, assim também como duas enteadas nascidas em 2000 e 2002). Embora pertençam a gerações diferentes dos adolescentes de hoje (a Geração Z, nascidos a partir de 2010) os processos de crescimento e evolução bio-psico-sociais continuam universais. No entanto, algo crucial mudou, e muito! É essencial reconhecer que o ambiente da Geração Z, profundamente tecnológico, é extraordinariamente singular.
Desde o lançamento do primeiro smartphone em 2007, crianças e adolescentes deixaram de precisar “esperar sua vez” para acessar a internet no computador da família, disponível por apenas algumas horas ou minutos, e quase sempre sob vigilância dos pais. Hoje, a Geração Z tem acesso a todos os conteúdos digitais onde quer que esteja, sem supervisão direta e com velocidade instantânea. Recentemente, recebi os pais de um menino de 14 anos que se sentem impotentes diante da presença constante da tecnologia na vida do filho. “É como se o tivessem roubado de nós”, disseram.
Essa conectividade crônica traz sérias repercussões para o cérebro em desenvolvimento da Geração Z. Vale lembrar que o córtex pré-frontal (responsável por funções como desempenho motor, julgamento, discernimento, pensamento abstrato, criatividade e adequação social) só atinge maturidade completa por volta dos 25 anos. Os efeitos psicoemocionais do uso excessivo da tecnologia incluem dependência, dificuldade de concentração, imediatismo, intolerância, irritabilidade e distúrbios do sono, entre outros. Além disso, a questão da segurança dos adolescentes em relação ao uso do celular levanta preocupações, e o equilíbrio entre segurança e privacidade é delicado. Ao aconselhar pais e educadores, procuro enfatizar a importância de balancear o direito à privacidade do adolescente com a responsabilidade dos pais de garantir sua segurança.
Como psicólogos e especialistas em desenvolvimento infantil, acreditamos que a abordagem mais recomendada é baseada na confiança e na comunicação, e não na vigilância constante. Gostaria de sugerir alguns pontos-chave que podem auxiliar os pais nessa questão tão importante e atual:
1. Privacidade é importante para o desenvolvimento: A adolescência é uma fase em que os jovens precisam construir sua autonomia e identidade. Conceder certa privacidade ajuda o adolescente a desenvolver responsabilidade e confiança em si mesmo.
2. Segurança e limites são necessários: Ao mesmo tempo, é natural que os pais se preocupem com a segurança online dos filhos. Em vez de exigir acesso total às senhas, uma boa medida é estabelecer regras claras para o uso de redes sociais e da internet, incluindo horários e tipos de conteúdo apropriados. Por exemplo, instituir em casa um “local de descanso do celular” durante refeições e estudos pode ser útil;
3. Fomentar o diálogo aberto: Incentivar uma comunicação aberta entre os pais e o(a) adolescente sobre o que ele(a) faz online, com quem interage e possíveis situações de risco é mais eficaz do que monitoramento constante. Quando há confiança e os pais se mostram abertos a ouvir, é mais provável que o(a) adolescente compartilhe suas experiências espontaneamente. Vale também sugerir que os pais aproveitem também para compartilhar suas próprias experiências online -boas e ruins- com o objetivo de incentivar diálogos sem sensuras;
4. Estabelecer acordos sobre o uso de tecnologia: Em vez de impor controle, os pais podem criar acordos em conjunto com os filhos sobre o uso da tecnologia, incluindo tempo de uso e comportamentos online. Também podem definir momentos específicos para supervisão, caso haja sinais de comportamento preocupante;
5. Respeitar a necessidade de privacidade emocional: Ao invadir o celular, os pais podem interferir nas relações e nos sentimentos do(a) adolescente, o que pode enfraquecer a confiança mútua. Validar as emoções do jovem e compreender seu espaço emocional é crucial para um desenvolvimento saudável.
É essencial que os pais entendam que criar um ambiente de confiança pode ser mais protetivo a longo prazo do que o controle absoluto.
Se você é pai ou mãe de um(a) adolescente “conectado” e gostaria de mais informações sobre este tema tão atual e inquietante, não hesite em me pedir ajuda! Terei prazer em contribuir com mais dicas e ideias de acordo com as particularidades do(a) seu(a) filho(a) e da sua família.